ENGAJAMENTO ELEITORAL Notícia / reportagem

Do 22 ao +18: perfis de conteúdo adulto reforçam campanha pró-Flávio nas redes sociais

Levantamento do Meridiano revela como mensagens pró-Flávio e ataques à esquerda viram isca de engajamento para perfis que divulgam conteúdo adulto

Publicado em Atualizado em 7 minutos de leitura

Em uma única publicação de Flávio Bolsonaro (PL), duas contas deixaram seis comentários que, juntos, somavam 12.753 curtidas. As mensagens seguiam uma fórmula: perguntas sobre quem votaria no candidato, manifestações de apoio à direita e provocações aos petistas. Por trás delas, perfis com fotografias femininas de forte apelo sexual e links para canais externos.

Colagem ilustra o uso de imagens sensuais e convites para acessar links externos nos perfis registrados pelo Meridiano.

O comportamento foi identificado em um levantamento do Meridiano, que observou 50 contas durante o primeiro turno e a primeira semana do segundo turno da campanha presidencial de 2026. Os comentários apareceram principalmente em publicações do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, de Pablo Marçal e do deputado federal Nikolas Ferreira, mas também em páginas de veículos jornalísticos, como O Globo, Folha de S.Paulo e Jovem Pan.

As mensagens circulam em um ambiente de intensa interação. Segundo levantamento do Projeto Brief divulgado pela Folha de S.Paulo em 9 de outubro, o Instagram concentrou 94% do engajamento de Flávio Bolsonaro nas plataformas monitoradas entre 14 de setembro e 7 de outubro. A análise contabilizou curtidas, comentários e compartilhamentos nas contas oficiais dos candidatos no Instagram, TikTok, X, YouTube e Facebook.

A velocidade chamou atenção. Em publicações acompanhadas em tempo real, uma mesma conta chegou a deixar mais de sete comentários diferentes quando o post tinha cerca de um minuto de existência. Em outro registro, a pergunta “Quem não suporta a esquerda?” acumulava 8.937 curtidas.

Entre os perfis observados, há contas com menos de 400 seguidores e outras com mais de 34 mil. O levantamento começou pela observação de comentários em páginas de notícias e se estendeu a publicações de políticos e influenciadores de direita. O Meridiano registrou os nomes de usuário e passou a acompanhar diariamente o comportamento dessas contas. A apuração reuniu anotações e capturas de tela, mas nem todas as contas tiveram capturas individuais.

Mensagens de apoio a Flávio Bolsonaro aparecem em publicações do candidato, de Nikolas Ferreira e de Pablo Marçal

Quando o voto vira engajamento

A estratégia aparente é transformar identificação política em audiência. O usuário encontra uma frase com a qual concorda, curte ou responde. Cada interação oferece uma nova oportunidade de visibilidade para a mensagem e para o perfil responsável.

Em vez de discutir propostas ou políticas públicas, predominam perguntas de resposta previsível. “Quem vai votar no Flávio Bolsonaro?” não funciona necessariamente como uma pesquisa de opinião. É também uma convocação para demonstrar pertencimento político.

Um estudo publicado em 2023 na International Journal of Communication, com 1.225 usuários dinamarqueses do Facebook, identificou que comentários alinhados às opiniões dos participantes aumentavam a disposição de compartilhar publicações e participar das discussões. O resultado estava associado à percepção de apoio entre os usuários.

Embora realizado em outra plataforma, o experimento ajuda a compreender como mensagens que despertam identificação podem estimular interações.

O efeito também pode distorcer a percepção do debate público. Seis comentários feitos por uma mesma conta não representam seis eleitores diferentes. Ainda assim, quando essas mensagens acumulam milhares de curtidas e respostas, podem transmitir a impressão de uma mobilização mais disseminada do que o número de autores sugere.

Montagem ilustra a combinação entre comentários pró-Flávio e conteúdo +18 identificada no levantamento.

Da política ao conteúdo adulto

Ao acessar os perfis mais recorrentes, o Meridiano encontrou páginas dominadas por fotografias e vídeos sensuais, enquanto o conteúdo político aparecia principalmente nos comentários de publicações de terceiros.

Em 32 das 50 contas acompanhadas, foram identificados caminhos para ambientes externos: links de páginas que anunciavam conteúdos para maiores de 18 anos, direcionando os visitantes a canais “VIP” no Telegram.

Em um dos percursos registrados pela reportagem, uma página com o convite “Meus conteúdos +18” encaminhava o visitante a um bot no Telegram. Na tela, a plataforma indicava 69.239 usuários mensais.

Ao iniciar a conversa, o bot apresentou uma oferta de acesso a um grupo VIP: R$ 29,94 por 30 dias, R$ 59,94 por 90 dias e R$ 99,94 pela opção anunciada como “Vitalício + WPP”. A mensagem informava pagamento via Pix e prometia acesso imediato.

Bot no Telegram exibia 69.239 usuários mensais e anunciava planos pagos via Pix. Montagem editorial produzida com auxílio de IA a partir de registro de tela da reportagem.

A combinação sugere um possível funil de captação de público, mecanismo utilizado no marketing digital para atrair a atenção de potenciais consumidores e conduzi-los até uma oferta.

Nesse cenário, a política pode funcionar como porta de entrada. O comentário conquista curtidas, ganha visibilidade e desperta curiosidade sobre quem o publicou. No perfil, imagens sensuais oferecem outro estímulo à atenção, enquanto os links externos abrem caminho para conteúdos que não têm relação com a eleição.

A concentração das mensagens em ambientes bolsonaristas também chama atenção pelo público que esses espaços mobilizam. Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada na sexta-feira (9) apontou Flávio Bolsonaro com 57,7% das intenções de voto entre homens, contra 45,2% entre mulheres. O levantamento ouviu 5.026 pessoas entre os dias 3 e 8 de outubro.

Os dados não identificam o público que efetivamente visita as contas investigadas. Mas ajudam a contextualizar a hipótese de que a maior intenção de voto em Flávio entre homens possa representar uma oportunidade de conquista de audiência masculina para esses perfis.

A imagem da mulher na vitrine conservadora

Há uma contradição que atravessa esse comportamento. O bolsonarismo tem na defesa da família tradicional e de valores conservadores relacionados à sexualidade uma parte importante de seu discurso político. Ao mesmo tempo, o levantamento mostra como mensagens de identificação com esse campo podem ser utilizadas por perfis que fazem da exposição sensual feminina um atrativo para conquistar atenção.

A questão não está na liberdade de mulheres produzirem conteúdo sensual ou adulto, mas na possibilidade de que suas imagens sejam utilizadas como instrumento de captação comercial, aproveitando a mobilização de um público por suas convicções políticas.

Registro de um dos perfis que apresenta identificação conservadora logo acima do link para venda de conteúdo adulto

Nesse possível mecanismo, duas formas de atração se encontram: a identificação ideológica, estimulada pelos comentários, e o interesse despertado pelas imagens dos perfis. O eleitor pode curtir uma mensagem por concordar com ela e, ao visitar a conta, encontrar uma oferta que nada tem a ver com a disputa presidencial.

O resultado é uma possível exploração comercial da polarização, na qual o eleitor deixa de ser apenas alguém a ser convencido politicamente e passa a representar também um potencial consumidor.

O Meridiano tentou contato, por mensagem, com perfis identificados durante o levantamento, mas não recebeu resposta até o fechamento desta reportagem. A apuração não encontrou provas de ligação dessas contas com campanhas eleitorais.

Embora tenham sido encontrados links para conteúdo adulto e canais VIP, não foi possível determinar se o engajamento político resulta efetivamente em vendas, qual seria o faturamento desses canais ou o destino de eventuais receitas.

O que os registros revelam é a repetição de mensagens favoráveis ao bolsonarismo, em grande volume e nos primeiros momentos de publicações, por contas que também oferecem caminhos para conquistar público fora das discussões políticas com o estímulo hipersexualizado da imagem feminina.

O Meridiano optou por não identificar os perfis, já que não foi possível verificar se as imagens utilizadas retratam pessoas reais, foram usadas sem autorização ou são geradas por inteligência artificial.

Na campanha presidencial, a disputa por votos produz emoções, identificação e visibilidade. Para alguns perfis, essa atenção pode ter valor muito além das urnas.

A pergunta é sobre quem vai votar no 22. Mas quem visita o perfil pode encontrar uma oferta que nada tem a ver com as urnas.