Mais de 36 denúncias de violência foram encaminhadas pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) às autoridades no período pós-eleitoral. O cenário de ameaças e violações não é novo, mas, mesmo longe das urnas, continua à margem da atenção pública.
Um dos casos foi registrado no município de Tacuru, no estado de Mato Grosso do Sul. Aos 84 anos, a liderança espiritual da Aldeia Jaguapiré amanheceu com a casa em chamas. O vídeo que acompanhava a notícia, mostrava a fumaça saindo pelo telhado, em outra imagem ela aparece com olhar cabisbaixo na frente do que restou da estrutura destruída pelo fogo.
Para o agente da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), ela contou que sofre preconceito por seguir as tradições religiosas da etnia Guarani-Kaiowá e que realiza rituais para “pedir saúde e proteção”. Essa última frase da notícia me paralisou. Vi meu reflexo na tela do celular e pensei: quem não vive uma realidade como a dela consegue entender o peso histórico que carrega essa fala ? Será que eu consigo ?
Há 526 anos, ou melhor, muito antes disso, os povos originários já habitavam o território brasileiro, por isso reforçamos que o Brasil é terra indígena. A partir daí, o território foi invadido com a intenção de tomar de assalto as terras, estuprar, escravizar; a colonização trouxe todo um combo de violência que você vai ver, ainda é muito reproduzido.
Em 1500, Pero Vaz de Caminha, escrivão oficial da corte, descreveu na carta enviada ao rei de Portugal que, sem ter visto ouro em nossas terras, a maior riqueza seria colonizar e converter os indígenas ao catolicismo. Pausa aqui !
Agora sem romantizar e deixando suas crenças um pouco de lado, corta para a realidade do dia 29 de outubro de 2026 na Aldeia Jaguapiré : A espiritualidade sagrada para um povo, é atacada. Uma tentativa de enfraquecer o que fortalece a conexão com a origem, a história ancestral, com quem você é. Ou seja, tudo o que a intolerância religiosa não permite existir.
Os efeitos violentos da colonização se alastram como o fogo em nosso repertório mental de entendimento . Como tentativa de apagar essa cultura, a fumaça embaça a realidade e inferioriza qualquer forma de existência dos povos indígenas. Os resquícios das cinzas? Um Brasil que prefere não se envolver nessa luta, deixando-os de escanteio e tratando-os como se habitassem um país paralelo.
Também na cidade de Tacuru, dias antes, um áudio circulou pelos grupos de whatsapp; as falas sugeriam envenenar a água que seria consumida na Aldeia Sassoró.
Tá vendo? Séculos se passaram e a realidade é a mesma descrita pelo antropólogo Darcy Ribeiro, no livro “Os Índios e a Civilização: A integração das populações indígenas no Brasil moderno”, que detalha os mecanismos de violência usados pelos colonizadores, como quando envenenavam a água e deixavam coisas contaminadas com varíola assim, matavam milhares de indígenas .
O ativista Jânio Kaiowa explicou o racismo que envolve esse tipo de ameaça e o pavor com que essa informação chegou até a aldeia. Tendo em vista que a região sofre com a falta de água e o abastecimento depende de carro-pipa. Os áudios criminosos foram atribuídos a dois servidores públicos da prefeitura de Tacuru, eles foram afastados do cargo e o caso está sendo investigado pela Polícia Federal.
Marcado por conflitos territoriais, o Mato Grosso do Sul abriga a terceira maior população indígena do Brasil, com mais de 116 mil pessoas. Dados oficiais do Instituto Socioambiental (ISA) apontam que as Terras Indígenas representam apenas 2,5% do território total do estado.
A realidade no Brasil mostra a verdadeira herança do modelo colonial, inúmeras violências, conflitos fundiários, invasões, grilagens, garimpo ilegal, a devastação do meio ambiente e desigualdades estruturais.
Por isso , é fundamental ter as terras protegidas de forma definitiva pelo governo federal, ou seja, demarcadas. É importante para garantir a vida e a segurança jurídica. A retomada do Tekoha, que vai além do espaço físico, é como os Guarani e Kaiowá, chamam os seus territórios ancestrais, é um direito constitucional de todos os povos indígenas !
Atualmente, de acordo com o Isa, o Brasil possui 299 áreas que estão em diferentes etapas do processo demarcatório . Reforço que as denúncias que citei, se passam em áreas já demarcadas e regularizadas. Agora imagina que acontece nas que não são ?
A Apib enviou uma carta ao presidente solicitando medidas imediatas de proteção aos povos indígenas e o avanço na etapa de 73 terras já declaradas, aguardam apenas a assinatura final para concluir a demarcação.
É uma promessa do Governo Lula demarcar todas as terras indígenas do país até finalizar o mandato de 2026. Mas toda essa lentidão nos processos, além de cruel, é ainda mais devastadora . Agora consegue entender ? Se até o ato de pedir proteção à própria espiritualidade é alvo de violência, a quem então os povos indígenas podem recorrer?

